A Amazônia tem satélites, alertas em tempo real, ONGs internacionais e cobertura constante da imprensa global. O Cerrado tem o INPE, alguns pesquisadores dedicados e uma cobertura midiática que aparece, quando aparece, como nota de rodapé nas reportagens sobre a Amazônia.
Essa assimetria de atenção tem consequências concretas. Enquanto o desmatamento na Amazônia caiu 45% em 2023 e 2024, o Cerrado continuou sendo destruído em ritmo acelerado. Em 2025, pela primeira vez na série histórica, a área desmatada no Cerrado superou a da Amazônia: 1,4 milhão de hectares contra 1,2 milhão.
Por que o Cerrado não importa (tanto)
A resposta curta é: porque não é floresta. O Cerrado é uma savana tropical — um bioma de árvores retorcidas, gramíneas e arbustos que não impressiona visualmente da mesma forma que a floresta amazônica. Não tem o mesmo apelo fotográfico. Não tem a mesma narrativa de "pulmão do mundo".
A resposta mais longa envolve política, economia e história. O Cerrado foi a fronteira agrícola do Brasil nas décadas de 1970 e 1980. A expansão da soja e do milho no Cerrado foi apresentada — e ainda é, em muitos círculos — como um triunfo tecnológico e econômico. Criticar o desmatamento do Cerrado é, para muitos, criticar o agronegócio. E isso tem um custo político que poucos estão dispostos a pagar.
O que os dados mostram
O MapBiomas, plataforma de monitoramento do uso da terra no Brasil, publicou em maio de 2026 um relatório que deveria ter gerado manchetes. Segundo o estudo, o Cerrado perdeu 50,3% de sua cobertura vegetal original — mais da metade do bioma já foi convertida para uso agropecuário ou urbano.