Quando o Brasil exportou US$ 166 bilhões em produtos agropecuários em 2025, o número foi celebrado como prova da vitalidade do setor. O que raramente se discute é a estrutura de capital por trás dessa produção — quem financia, quem lucra e quem assume os riscos.
Esta reportagem é resultado de seis meses de análise de dados públicos do Banco Central, da CVM e do Ministério da Agricultura, combinados com entrevistas com economistas, gestores de fundos e representantes do setor.
O dinheiro público que sustenta o privado
O Plano Safra 2025/2026 disponibilizou R$ 475,9 bilhões em crédito rural — um recorde histórico. Desse total, cerca de 65% veio de fontes controladas ou subsidiadas pelo governo federal: recursos obrigatórios dos bancos, fundos constitucionais e programas como o Pronaf e o Pronamp.
Em outras palavras: o agronegócio brasileiro, frequentemente apresentado como exemplo de empreendedorismo privado, é sustentado em grande medida por crédito público subsidiado. Isso não é necessariamente um problema — é uma escolha de política econômica. Mas raramente é apresentado dessa forma.
"O discurso é de que o agro não precisa do Estado", diz a economista Fernanda Lopes, professora da Esalq/USP. "Mas tire o crédito subsidiado e veja o que acontece com a expansão da fronteira agrícola."
O capital estrangeiro e a questão da terra
Nos últimos dez anos, fundos de investimento estrangeiros aumentaram significativamente sua exposição ao agronegócio brasileiro — não apenas via exportações, mas por meio da aquisição direta ou indireta de terras e empresas do setor.